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24 de maio de 2009

Kampai! A história do sakê.

Toda grande civilização tem uma grande bebida. E a milenar cultura japonesa não teria passado por tantos séculos de glória sem a ajuda desse combustível essencial: o sakê.

Vamos começar nossa aventura de hoje pelo começo, corrigindo duas confusões. A primeira é que a palavra sakê, na língua japonesa, é apenas um termo genérico para descrever qualquer bebida alcoólica. O nome "correto" disso que nós chamamos de sakê é "nihonshu" (日本酒). A segunda é que muita gente chama o sakê de "vinho de arroz", quando na verdade seu processo de fermentação é diferente tanto do do vinho quanto do da cerveja.

Mas vamos evitar a fadiga e chamar o nihonshu de sakê mesmo. Bola pra frente.

Como muita coisa no Japão, a origem do sakê é tão antiga que ninguém sabe direito como tudo começou. Fato é que existem documentos que descrevem, no ano 712 do nosso calendário, os simpáticos habitantes daquela distante ilha asiática envolvidos em um ritual de bebedeira e dança. Existem também registros de produção de uma bebida usando grãos mastigados e cuspidos para fermentar - processo semelhante ao nosso brasileiríssimo cauim. Essa é uma dar formas mais antigas conhecidas pelo homem de transformar plantas em goró, e os chineses já a utilizavam no século XIV a.C.!

No período Asuka da história do Japão (entre 538 e 710 d.C.) o sakê já era a bebida alcoólica predominante naquele país, e sua receita básica já era utilizada. Os ingredientes utilizados para sua produção eram apenas três: água, arroz, e um fungo chamado kôji (nome científico Aspergillus oryzae, o mesmo que é utilizado na produção do molho de soja e do missô). Inicialmente essa produção era monopólio do governo, mas por volta do século X os templos budistas e shintoistas começaram e produzir seu próprio sakê, e se tornaram os principais produtores da bebida até o século XV.

Durante a Restauração Meiji, o governo liberou a abertura de fábricas de sakê, e em cerca de 1 ano foram abertas 30.000 destilarias da bebida em todo o Japão. No entanto, os impostos cada vez mais agressivos fecharam a maioria delas, e esse número caiu para "apenas" 8.000. A maioria delas era controlada por senhores de terras e fazendeiros que plantavam arroz e aproveitavam as sobras de colheita para produzir sakê.

Ao longo do tempo a produção de sakê foi ficando cada vez mais especializada e lucrativa. Em 1904 o governo japonês criou o Instituto de Pesquisas da Produção de Sakê, uma espécie de Embrapa especializada em "bebidas adultas". Em 1907 o governo também lançou um concurso para eleger os melhores sakês do Japão, incentivando o aumento de qualidade dos produtos.

Nesse início de século XX também chegaram os tonéis vitrificados, que o governo obrigou os produtores a usar em substituição aos de madeira. A explicação oficial eram os motivos de higiene, mas o fato dos novos tonéis evitarem a evaporação, aumentando a produtividade e, conseqüentemente, os impostos, também deve ter pesado na decisão do governo.

A última grande revolução no método de produção do sakê ocorreu durante a II Guerra Mundial, quando o racionamento de alimentos diminuiu significantemente o volume de arroz disponível para a produção de bebidas. Os produtores criaram então novos métodos de produzir a bebida, misturando álcool puro e açúcar na massa fermentada de arroz. Infelizmente esse método se tornou o padrão de indústria e é usado até hoje - estima-se que 75% do sakê produzido hoje utilize essa estratégia que desrespeita a tradição.

Paradoxalmente, após a II Guerra Mundial o sakê não voltou a seus índices anteriores de popularidade, mas entrou em declínio em seu país de origem. À medida em que os anos de passam, a qualidade do sakê japonês aumenta, mas seu consumo doméstico diminui. Nos anos 1960, o consumo de cerveja no Japão ultrapassou o de sakê, e de lá pra cá sua popularidade em seu país de origem apenas decaiu.

Felizmente, no resto do mundo, sua popularidade, cresceu. Com fábricas espalhadas na China, Ásia, América do Sul, América do Norte e Austrália, a bebida japonesa alcançou status mundial e é hoje consumida nos quatro cantos do mundo.

19 de janeiro de 2009

O Dino-sour dos Drinks!

Apesar do imperdoável trocadilho no título, esse post é de importância histórica e etílica. Hoje vamos tratar de uma antiga categoria de cocktails - os sours!

A palavra "sour", em inglês, quer dizer "amargo" ou "azedo". Pouco lisonjeira, mas correta: trata-se basicamente de uma mistura de alguma bebida destilada, uma bebida doce, e suco de limão ou lima.

Esse tipo de mistura é tão antigo que está no seminal livro "How to Mix Drinks", de Jerry Thomas, ao lado de outras categorias comuns no final do século XIX, como os toddys e os juleps.

Seguem-se as receitas dos mais clássicos e deliciosos sours que encontrei em meus surrados alfarrábios:

神風 (Kamikaze)
Segundo a lenda, esse sour foi criado no bar da base militar de Yokosuka, perto de Tóquio, durante a ocupação estadunidense depois da II Guerra Mundial.

Serve-se: Direto; Sem gelo.
Decoração: Fatia de Limão.
Copo: Cocktail; Shot.

Ingredientes:
  • 1 parte de Vodka
  • 1 parte de Triple-Sec (Cointreau)
  • 1 parte de Suco de Limão
Misturar todos os ingredientes na coqueteleira com bastante gelo; servir direto, sem os cubos de gelo.


Amaretto Sour
Ingredientes:
  • 2 partes de Amaretto (licor de amêndoa)
  • 1 parte de Suco de Limão
Bata na coqueteleira com gelo. Sirva em um copo baixo (old-fashioned) com borda de açúcar cristal. Decore com uma cereja Marraschino.


Daiquiri
Já contei a história desse drink aqui no blog, então vamos ao que interessa:
Servir: Direto, sem gelo.
Copo: Cocktail.

Ingredientes:
  • 9 partes de Rum Branco
  • 4 partes de Suco de Limão
  • 1 parte de Xarope de Açúcar
Bata tudo na coqueteleira com gelo, e sirva sem o gelo.


Sidecar

Decoração: Borda de açúcar, casca de lima.
Copo: Cocktail.

Ingredientes:
  • 1 parte de Brandy ou Cognac
  • 1 parte de Cointreau
  • 1 parte de Suco de Lima (ou Limão)
Misture todos os ingredientes em uma coqueteleira cheia de gelo. Sirva sem o gelo em um copo com a borda açucarada. Decore com uma tira de casca de lima.


Margarita
Um clássico para os amantes da tequila!
Servida: "On the rocks"; copo com gelo.
Decoração: Borda com sal; casca de limão.
Copo: Taça de Margarita.

Ingredientes:
  • 7 partes de Tequila
  • 4 partes de Cointreau
  • 3 partes de Suco de Limão ou Lima
Coloque todos os ingredientes em uma coqueteleira com gelo. Misture bem. Sirva em uma taça gelada decorada com borda de sal e uma casca de limão ou uma fatia de limão. Atenção: a borda de sal é opcional. Muita gente gosta por causa do visual, mas para mim é só um truque barato para disfarçar o gosto de tequila vagabunda. Se você usar tequila de boa qualidade, isso não é necessário. Você também pode variar as proporções dos ingredientes dependendo do seu gosto pessoal, mas essa é a proporção oficial da IBA.


Pisco Sour

Servido: Direto, sem gelo.
Copo: Old-fashioned.

Ingredientes:
  • 8 partes de Pisco
  • 4 partes de Suco de Limão
  • 3 partes de Xarope de Açúcar
  • 1 pitada de Bitters
Misture bem o Pisco, o suco de limão e o xarope numa coqueteleira com gelo e sirva no copo. Pingue um pouquinho de bitters (Angostura por exemplo) por cima depois de servido.


Whisky Sour

Decoração: Copo com borda de açúcar, casca de lima.
Copo: Old-fashioned ou Cobbler (low ball).

Ingredientes:
  • 3 partes de Bourbon
  • 2 partes de Suco de Lima (ou Limão)
  • 1 parte de Xarope de Açúcar
Misturar na coqueteleira com gelo. Servir em um copo old-fashioned com gelo.


White Lady
Uma variação interessante do Sidecar, usando Gin ao invés de Cognac.
Decoração: Copo com borda de açúcar, casca de lima.
Copo: Cocktail.

Ingredientes:
  • 2 partes de Gin
  • 1 parte de Cointreau
  • 1 parte de Suco de Lima (ou Limão)
Misture os ingredientes em uma coqueteleira com gelo. Sirva no copo, sem o gelo, e decore com uma casquinha de lima.

18 de janeiro de 2009

Tin-tin!

O costume de brindar antes de beber é tão antigo que ninguém sabe ao certo quando e onde ele se originou. Existe uma lenda de que na Idade Média as pessoas batiam os copos uns nos outros, derrubando gotas entre os copos, para provar que eles não estavam envenenados, mas não existe nenhuma prova disso.

Considerando a universalidade do gesto de levantar os copos, podemos imaginar que isso seja tão antigo quanto os rituais, ou seja, tão antigo quanto a própria cultura humana. Talvez uma maneira de oferecer a bebida aos deuses antes de ingeri-la, pedindo por proteção e... saúde! Um gesto primitivo, precursor daquela cachacinha que jogamos para o santo.

Em todo o mundo levanta-se o copo e diz-se alguma coisa. O som dos copos batendo pode atrair os bons espíritos - ou pode ser apenas uma maneira de verificar a qualidade do cristal que o dono da casa está te oferecendo. Mas o mais importante mesmo são as intenções por trás do gesto.

Em todo o mundo se dizem várias coisas, mas o nosso bom e velho "saúde" é quase que um campeão universal. Nossos irmãos seres humanos brindam desejando "saúde" nas mais variadas línguas e nos mais diversos países:
  • Ваше здоровье! - Rússia
  • بصحتك! - Mundo Árabe
  • Egészségedre! - Hungria
  • Geiá mas! - Grécia
  • Gesondheid! - África do Sul
  • Į sveikatą! - Lituânia
  • На здраве! - Bulgária
  • На здравје! - Macedônia
  • Na zdraví! - Rep. Tcheca, Eslováquia, Eslovênia
  • Salud! - Espanha
  • Salut! - Catalunha
  • Salute! - Itália
  • Sǎnǎtate! - Romênia
  • Santé! - França e Québec
  • Saúde! - Brasil e Portugal
  • Terviseks! - Estônia
  • Topa! - Euskal Herria
  • Živjeli! - Croácia
  • Zum Wohl! - Alemanha e Áustria
Um dos principais países bebedores do mundo, a Irlanda, brinda em sua língua ancestral: "Sláinte!" - o significado, eu não sei, mas deve ser saúde.

Mas o meu brinde favorito é usado até hoje no norte da Europa e na Alemanha, e vem do tempo dos "bárbaros" que assolaram o Império Romano naquela região. Os flemish da Holanda dizem "Schol!" Os islandeses, "Skál!" Na Dinamarca, Noruega, Suécia e Finlândia, "Skål!" Na Alemanha, a grafia adotada por aquela famigerada cerveja brasileira: "Skol!"

Se a palavra não lhes parece familiar, tentem outra língua, descendente direta dessas todas: "skull" em inglês quer dizer "crânio". Segundo a lenda, os vikings arrancavam as cabeças de seus inimigos, quebravam seus crânios e usavam a parte de dentro para beber cerveja.

É uma história, mas como quase todas as ótimas histórias, é mentira. "Skol", na língua dos vikings, quer dizer apenas... "saúde".


Errata: A cerveja Skol não é brasileira. Ela foi criada em 1964 por um consórcio internacional de empresas: Allied Breweries do Reino Unido, Labatt do Canadá, Pripps-Bryggerierna da Súecia, e a Unibra da Bélgica.

30 de outubro de 2008

Nightripping: "Hurricane - A história (e a receita) do drink"


por Alexandre Nix

História

New Orleans, anos 40, tempos de guerra. Não qualquer guerra, mas a Segunda Grande Guerra... os estoques de whiskey estavam em baixa e B. H. O'Brien teria de solucionar esse problema de alguma forma. Não era a primeira vez que esse tipo de coisa acontecia e ele havia sobrevivido a uma crise pior há dez anos: A Lei Seca.

Em 1930 "Pat" O'Brian precisou "remodelar" seu negócio e transformou o Pat O'Brien's Bar em uma das várias casas de consumo ilegal de álcool. Rebatizou o estabelecimento como "Mr. O'Brien's Club Tipperary" e manteve sua clientela seleta, abrindo as portas apenas para quem soubesse a senha do momento. Pessoas trêmulas dizendo coisas como "Storm's Brewin" para as portas começaram a se tornar lugar comum no French Quarter.

Quando a Lei Seca terminou em 1933, O'Brien abriu oficialmente as portas e pôde deixar de dormir no chão da casa de amigos de uma vez por todas. Em 1942 mudou o local do seu bar para o número 718 da St. Peter Street. Sob o lema "Have Fun!" escrito por todo lugar, ele estabeleceu "o local" onde as pessoas deveriam estar.

Agora era a guerra atrapalhando seus negócios e os dizeres estampado nos guardanapos e aventais dos bartenders começava a se transformar em uma piada de mau gosto. Ele iria solucionar essa crise. Ele sobrevivera à Lei Seca e aquilo foi pior do que a guerra.

Na verdade o problema não era a falta de whiskey, mas o excesso de rum. Os malditos distribuidores forçavam a compra de caixas de rum para cada caixa de outro destilado encomendada. Agora Pat precisava resolver a questão do estoque absurdo de rum e manter seu lucro. Alguns marinheiros foram as primeiras cobaias de seu pequeno experimento que se tornaria uma das marcas registradas da cidade e faria conhecido seu bar por todo o país.


Receita

O Hurricane possui dezenas de variações, mas três coisas são certas:
  1. Rum;
  2. Não é o mesmo Hurricane conhecido nas Bahamas;
  3. É MUITO doce.

As variações todas se baseiam na receita original criada no Pat O'Brien's Bar, que acredito ser assim:

  • 2/3 de shot de Rum Claro
  • 2/3 de shot de Rum Escuro
  • 1/2 de shot de Suco de Laranja
  • 1/2 de shot de Suco de Limão
  • 240 ml (1 xícara) de Suco de Maracujá
  • 1 colher de chá de Açúcar
  • 1 colher de chá de Grenadine
  • Gelo picado.
Decoração: cerejas, rodelas de laranja

Modo de preparo: Em uma coqueteleira, misture o rum, os sucos e o açúcar até esse ficar diluído. Adicione o grenadine, e mexa o conteúdo até que ele fique homogêneo. Adicione gelo e misture. Preencha até a metade de um copo tipo "lâmpada" (ou "Hurricane") com gelo, adicione a mistura e mais gelo até o topo.


Tabela de conversão de medidas

  • O copo tipo "Hurricane" tem capacidade para cerca de 443ml.
  • Shot = copo de dose = 2oz. = 60ml.
  • 2/3 de shot = dois terços de um copo de dose = 1.5oz = uns 40ml (na real mesmo 44)
  • 1/2 de shot = meio copo de dose = 1oz. = 30ml.


Sugestão

Beba ouvindo Professor Longhair:

15 de outubro de 2008

Pã nã nã nã nã - pã pã! Tequila!

Entre os vulcões misteriosos do estado mexicano de Jalisco, a 65 quilômetros de Guadalajara, fica um pequeno município chamado "Tequila". Escondidos nos recônditos de los altos, os cidadãos dessa pequena cidade conseguiram colocá-la no mapa do imaginário popular de todo o mundo graças a uma bebida destilada inventada por eles, e que foi batizada com o nome de sua cidade.

Ali cresce uma planta chamada Agave tequilana - conhecida também como Agave Azul ou simplesmente Agave. Essa planta feiosa e cheia de folhas pontudas pertence à divisão Magnoliophyta e tem um ciclo de vida muito comprido. Somente quando ela tem 12 anos de idade é que seu miolo é extraído para a produção da famosa bebida.

Esse miolo, que parece um abacaxi gigante e pesa entre 35 e 90 kg, é cozido, e a seiva que sai de suas células é então fermentada e destilada. Além da tequila, outras bebidas locais são feitas com o agave usando processos semelhantes, como o mezcal e o pulque, que são consideradas bebidas mais tradicionais do que a tequila, embora nunca tenham atingido a mesma popularidade fora do México.

Atualmente existem no México mais de 200 milhões de pés de agave azul, mas a demanda das fábricas de tequila não está conseguindo ser suprida. Ao longo das décadas, a reprodução das plantas de agave foi feita de maneira artificial para acelerar a produção, e o resultado disso foi a diminuição da variedade genética das plantas, que ficaram mais fracas e hoje estão sujeitas a vários tipos de doenças e fraqueza, o que já deixa 30% das plantações imprópria para consumo.

Na última década, a produção de agave no México caiu bastante, devido a esse conjunto de doenças e problemas genéticos, que ficaram conhecidos coletivamente pela sigla TMA - Tristeza y Muerte de Agave. Essa crise deve demorar anos para ser contornada, o que já está levando o preço da tequila a subir no mundo todo.

Segundo os registros históricos, os astecas mexicanos já produziam uma bebida alcoólica feita de agave por volta do ano 200 da era cristã. Por isso o octli, conhecido hoje em dia como pulque, pode ser considerada a bebida alcoólica mais antiga da América do Norte.

A tequila começou a ser produzida no século XVI perto da cidade de Tequila, que só foi estabelecida em 1656. Os conquistadores espanhóis, quando ficaram sem suas próprias bebidas, começaram a destilar o pulque dos astecas, dando assim origem a algo bem parecido à tequila que conhecemos hoje.

Por volta do ano de 1600, Don Pedro Sánchez de Tagle, Marquês de Altamira, começou a produzir tequila em massa, criando a primeira fábrica de tequila de Jalisco. Em 1608, o governador da colônia de Nueva Galicia começou a cobrar impostos sobre ela.

A tequila "moderna" que bebemos hoje começou a ser produzida em Guadalajara no início do século XIX. Don Cenobio Sauza, fundador da Tequila Sauza e Presidente Municipal do Vilarejo de Tequila de 1884 a 1885, foi o primeiro empresário a exportar tequila mexicana para os Estados Unidos.

A tequila se divide inicialmente em dois tipos mais básicos: 100% Agave e Mixto. Os nomes já dizem tudo: a tequila mista usa outras fontes de açúcar além do agave, tornando sua digestão mais difícil. O açúcar do agave é feito de frutose, enquanto que os outros usados na tequila mista são de glucose.

Além dessa divisão, existem cinco categorias de tequila. Assim como em outras bebidas, a tequila transparente é mais "selvagem", enquanto que a amarelada é mais suave e encorpada, por ter sido envelhecida. As cinco categorias são:
  • Plata ou Blanca – Tequila transparente, não envelhecida, engarrafada logo após a destilação, ou então envelhecida por menos de dois meses em tonel de carvalho.
  • Oro – Tequila "blanca" misturada com tequilas "descansadas" ou envelhecidas, corante caramelo, xarope de açúcar, glicerina e/ou extrato de carvalho adicionado para dar um gosto de tequila envelhecida.
  • Reposada – Envelhecida por no mínimo dois meses e menos de um ano em tonéis de carvalho.
  • Añeja – Envelhecida por no mínimo um ano mas menos de 3 anos em tonel de carvalho.
  • Extra-Añeja – Envelhecida por no mínimo 3 anos em tonel de carvalho.
As marcas mais fáceis de serem encontradas no Brasil são a José Cuervo e a Sauza. Mas já existem outras marcas aparecendo no mercado nacional - no site da Imigrantes você encontra marcas como Sombrero Negro, El Charro, Caminho Real, Reserva 1800 e um tal de "aperitivo de agave" Serra Real que é bastante suspeito.

É difícil dizer qual marca é melhor do que qual, mas a regra geral é que as tequilas reposadas e añejo são mais saborosas e descem mais macio do que as oro, blanco ou plata. Normalmente eu compro a Sauza Hacienda mesmo, ou então a José Cuervo amarelinha. Mas se eu tiver que escolher entre uma das duas, eu fico com a Sauza Hacienda mesmo.

Existem muitas lendas sobre a tequila, envolvendo a forma "certa" de beber e aquela famosa larva que mora na garrafa.

Uma dessas lendas diz que a tequila deve ser bebida com sal e limão. A pessoa coloca um pouco de sal na mão, lambe, bebe um shot de tequila, e depois chupa uma fatia de limão. É um ritual muito divertido, mas não tem nenhuma tradição nisso. No México ninguém bebe tequila assim, e o sal e o limão só servem para encobrir o gosto ruim deixado por uma tequila de má qualidade.

Apesar disso, é um ótimo ritual para ser feito em grupo, e deixa qualquer festinha mais animada. Na Alemanha, algumas pessoas fazem isso quando bebem tequila plata, e quando bebem a oro usam canela no lugar do sal e laranja ao invés de limão.

Uma forma popular de beber tequila é o body shot. Ao invés de colocar o sal na sua própria mão, o sal a tequila e o limão são colocados em corpos alheios. Por exemplo, você pode colocar o sal na barriga de uma garota, encher o umbigo dela de tequila... bem, use a sua criatividade. Mas lembre-se: não foram os astecas quem inventaram esse ritual.

De qualquer forma, beber tequila de boa qualidade com sal e limão é vacilo. O sal e o limão só vão atrapalhar a sua degustação. Quando você quiser entornar uma garrafa de José Cuervo com os amigos da faculdade, capriche no cosplay e divirta-se. Mas quando aquele seu tio que trabalha na Petrobrás trouxer uma garrafa de tequila mexicana "profissional", não usurpe o sabor da pobrecita. Beba-a pura e sem afetação.

Segundo consta nos anais (epa!) do Drink Drinker, lá nos bares de Jalisco a tequila é bebida pura, em copos de shot, acompanhada de uma bebida chama Sangrita. Os dois copos são servidos lado-a-lado e as bebidas consumidas alternadamente.
Sangrita
  • 8 partes de Suco de Tomate
  • 1 parte de Suco de Laranja
  • 1 parte de Suco de Grapefruit
  • 1 parte de Suco de Limão
  • Gotas de Tabasco (molho de pimenta)
É só misturar tudo e servir gelado.

Outra lenda maluca envolvendo a tequila é o tal do gusano, um vermezinho gordo e fanfarrão que, segundo a lenda, é servido dentro do copo de tequila, e deve ser engolido juntamente com a bebida. Pode ser uma boa maneira de provar que você é corajoso, mas certamente não era nada disso que os fabricantes de tequila tinham em mente quando decidiram transformar o suco cozido do agave em um destilado de alta qualidade.

A bebida mexicana que costuma trazer essa larva na garrafa não é a tequila, mas sim o mezcal. Nos anos 1940, Jacobo Lozano Páez, engarrafador do mezcal Matatlán, começou a colocar as larvinhas nas garrafas para diferenciar seu produto no mercado de mazcal. O truque deu tão certo que até hoje as pessoas acham que tequila boa mesmo vem com uma larva dentro. Eu não sei de onde as pessoas tiraram a idéia maluca de que um feto de inseto morto pode deixar uma bebida melhor. Não quero nem imaginar que tipo de bebida essas pessoas andam consumindo!

Se você fizer muita questão de colocar uma larva morta na sua bebida, procure pelas espécies Hypopta agavis e Scyphophorus acupunctatus - conhecidas vulgarmente no México como chinicuil e picudo del agave respectivamente.

A lenda dos vermes também diz que eles te deixam mais bêbado, causam alucinações, e são afrodisíacos. Obviamente não existe nenhuma prova disso.

A tequila pode ser bebida em vários tipos de copo, mas em 2002 o Consejo Regulador del Tequila definiu um copo especial para a bebida, semelhante a uma flute de champagne só que um pouco menor. A idéia é dar à tequila um ar mais sóbrio e refinado - para poder aumentar o preço da bebida.

Normalmente em bares ela é servida em copos de shot ou até mesmo de Old-fashioned. A Margarita, o drink mais popular feito com tequila, é servido em uma taça específica que leva seu nome.
Para mais informações sobre tequila, assista à novela mexicana "Destilando Amor", um remake de "Café com Aroma de Mulher" que se passa nos campos de agave e nas destilarias de tequila de Jalisco.

2 de outubro de 2008

Uísque - A água da vida!

Uma das mais famosas bebidas no panteão dos destilados é certamente o uísque, conhecido no Brasil como uísqui, uiscão, o esquisito, bala-12, cavalinho, joão andarilho, preto-e-branco, etc. No entanto, devido à péssima qualidade do uísque nacional, e dos preços proibitivos do uísque importado, essa bebida tem no Brasil muito mais fama do que reconhecimento. Então vamos logo começar a desvendar o mundo misterioso e encantador desse famoso elixir.

Ao contrário do que diz a lenda, o uísque não é originário da Escócia - ele é apenas mais uma das várias bençãos que a Irlanda já deu à humanidade - assim como os Undertones, os Stiff Little Fingers, o James Joyce, o Van Morrison, e aquela gostosinha da Dolores O'Riordan (vocalista dos Cranberries). Quer dizer, na verdade, é impossível precisar quem inventou o uísque, ou aonde, mas o registro histórico escrito mais antigo sobre o uísque de que se tem notícia data de 1405, e foi feito na Irlanda - registro semelhante, na Escócia, só apareceu por volta de 1496.

Destilar bebidas é uma atividade que surgiu no Oriente Médio (esse então tem uma lista de dádivas à humanidade tão grande que nem cabe aqui), por volta dos séculos VIII e IX, e cuja prática se espalhou pela Europa ao longo da Idade Média, graças aos iluminados monges católicos.

A palavra "whisky" vem do gaélico "uisge-beatha", que significa "água da vida". Provavelmente os soldados ingleses que invadiram a Irlanda não conseguiam pronunciar "uisge-beatha" direito, e aí acabou virando "whisky" mesmo. Tem uma frescura aí de que o uísque irlandês se escreve "whiskey" e os outros são só "whisky", mas são detalhes à parte que só interessam aos grandes empresários do ramo.

Então vamos ao que interessa.
O uísque é uma bebida alcoólica, destilada a partir de grãos de cevada, centeio, trigo e até mesmo milho. Esses grãos são usados para criar um álcool, que é então guardado em barris de madeira e deixado quieto para descansar. Ao longo dos anos, esse líquido reage com as paredes de madeira do barril, alterando sua composição química, sua aparência e seu sabor.

Existem muitos tipos diferentes de uísque. A primeira classificação que pode ser usada para diferenciá-los é a de Malt ou Grain. O uísque malt é feito com grãos de cevada maltados, enquanto que o grain é feito com grãos de cevada misturados a outros tipos de grãos.

Esse tal de "malte" de que tanto se fala tanto no mundo do uísque quanto no da cerveja é apenas um processo bastante simples para modificar a composição e o sabor dos grãos. Consiste em deixar os grãos de um cereal germinarem na água, e depois, quando o broto estiver começando a sair, interromper o processo bruscamente com a adição de água quente. O grão semi-germinado é chamado de "maltado" e tem um sabor bastante diferente do grão "cru".

A outra classificação do uísque se refere à maneira como ele é produzido e/ou misturado.
  • Vatted Malt é uma mistura de uísques de malte feitos em várias destilarias diferentes. Quando um uísque vem com "pure malt" ou só "malt" no rótulo, provavelmente é um vatted whisky. Às vezes no rótulo também vem escrito "Blended Malt". Dá na mesma: é uma mistureba de uísques de várias fontes diferentes, mas todos eles exclusivamente feitos com grãos de cevada maltados.
  • Single Malt é um uísque de malte feito em uma única destilaria, mas provavelmente feito da mistura de vários tonéis diferentes - a não ser que ele diga especificamente "single cask" no rótulo, o que significa que o uísque é todo do mesmo tonel. Normalmente o "blended" é feito com uma mistura de vários tonéis e várias idades, o que dá a cada mistura (blend) um sabor único e distinto. Normalmente o nome do uísque é o nome da destilaria que o produziu (Glenlivet, Bushmills, Yoichi), com indicações do tipo de tonel que foi usado e outras características daquela mistura.
  • Pure Pot Still é um tipo de uísque irlandês destilado em um pot-still (um tipo de alambique) feito com uma mistura de grãos maltados e não-maltados de cevada.
  • Blended é um uísque feito com a mistura de uísques maltados e de grão. Normalmente quando alguém fala em "Scotch Whisky" ou "Irish Whiskey", o mais provável é que seja um desses. Normalmente eles são feitos com uísques provenientes de várias destilarias diferentes, permitindo ao produtor colocar seu próprio nome na mistura, ao invés de ter que usar o nome de uma só destilaria (por exemplo: Chivas Regal, Jameson, Johnnie Walker).
  • Cask Strength é o tipo mais raro (e caro) de uísque. Significa que o produtor engarrafou exatamente o que estava dentro de um barril, sem diluir nem misturar com mais nada. O especialista que pega uma garrafa dessas dilui e mistura o uísque ao seu próprio gosto.
Uma das características mais marcantes do uísque é o seu envelhecimento. Todo mundo que conhece um pouquinho de uísque, e mesmo quem não bebe, já ouvi falar em uísque 8 anos, 12 anos, 18 anos, etc. Esses períodos de tempo indicam quanto tempo o uísque passou envelhecendo nos tonéis de madeira. Só porque um uísque passou mais tempo do que outro, não quer dizer que ele seja necessariamente melhor - isso depende da qualidade que o uísque já tinha quando foi colocado no tonel, e do tipo de madeira desse tonel. Ao contrário do vinho, que envelhece na garrafa, o uísque só envelhece no barril - é por isso que a idade do vinho é estampada em seu rótulo na forma do ano em que foi engarrafado, enquanto que o uísque traz apenas o tempo em que ele ficou envelhecendo na madeira. No caso dos uísques blended, que trazem misturas de uísques feitos em vários tonéis ou até mesmo várias destilarias diferentes, a idade que vem no rótulo sempre se refere à do uísque que passou menos tempo envelhecendo - sendo assim, um uísque rotulado como 12 anos pode conter partes de uísques mais envelhecidos do que isso.

Essas características todas são encontradas nos uísques irlandeses e escoceses, considerados os melhores e mais famosos do mundo, mas também se fabricam bons uísques em outros países. Recentemente, os uísques japoneses têm ganhado respeito no mercado internacional, batendo concorrentes escoceses em testes cegos. Existe também o uísque canadense, feito de centeio, que tem um sabor e uma textura que lhe são bem peculiares.

No entanto, é nos Estados Unidos que existem os uísques "nacionais" mais diferenciados. Existem basicamente quatro estilos de uísque estadunidense: Bourbon, Rye, Corn e Tennessee. O Rye Whisky, obviamente, é feito de rye, ou seja, centeio. O Bourbon e o Corn Whisky são ambos feitos de milho - o Bourbon feito com pelo menos 50% de milho, e o Corn com mais de 80% de grãos de milho na mistura.

Mas o mais interessante e característico de todos é o Tennessee Whisky. A princípio ele é produzido como o Bourbon, mas depois de destilado ele é filtrado em pedras de carvão feito de uma árvore chamada maple - aquela mesma arvorezinha simpática cuja folha está na bandeira do Canadá. Essa filtragem dá ao Tennessee Whisky um sabor e textura característicos. Esse processo foi criado pelo meu xará Jack Daniel, em cuja destilaria até hoje é fabricada uma das bebidas mais famosas do mundo, o Jack Daniel's Tennessee Whisky.

25 de setembro de 2008

Pérolas do saber cachacístico

Se o Papa de Roma soubesse o gosto que a cana tem,
deixava Roma sem Papa e bebia cana também.

Macaco velho não se engana.
Te afasta, alma, que lá vai cana.

Cachaça, não se faça de besta:
desça pra barriga, e não suba pra cabeça.

Água pra mim, só se for ardente.
Nela eu tomo banho e até escovo os dente.

13 de setembro de 2008

Gin - O Crack Engarrafado!

Quando você pede um drink com gin em um bar ou restaurante do Brasil, os comentários mais comuns que você ouve são os seguintes:

- Gin é o último estágio do alcoolismo!
- Gin tem gosto de perfume!
- Gin é bebida de velho!

Esses comentários fazem parte do inconsciente coletivo, e quase todo mundo os têm na ponta da língua, não demonstrando pudor algum em dispará-los contra o pobre e inocente bebedor de gin, e sem demonstrar ao menos uma ponta de curiosidade. No entanto, depois de ser agraciado com uma amostra do mais puro gin London dry, a pessoa nunca mais volta atrás: eu nunca ouvi falar de um ex-bebedor de gin. Além do mais, todo alcoólatra que eu conheci na minha vida só bebia cerveja nacional, perfume é uma coisa muito cheirosa, e coisas de velho sempre são mais legais do que coisas de jovem - como, por exemplo, as bebidas, as gírias, as roupas, e as músicas.

Vou contar agora a pequena história dessa misteriosa bebida, para nos ajudar a compreender melhor o seu valor.

Tudo começou na Holanda, por volta do século XVII, quando o médico e cientista alemão Franciscus Sylvius começou a desenvolver um remédio para curar doenças do aparelho digestivo como lumbago, problemas de fígado e coisas do gênero. O remédio, feito à base de álcool de grãos e uma frutinha chamada zimbro, logo se espalhou pelas farmácias de toda a Amsterdã e região.

Em 1688, ocorreu na Inglaterra a Revolução Gloriosa, que destronou o rei James II e o substituiu pelo holandês Guilherme de Nassau e Orange, que tornou-se então o rei James III da Inglaterra, Irlanda e Escócia. Após sua ascensão ao trono, seguiu-se um período de abertura de mercado para produtos holandeses, e então o remédio do Dr. Sylvius passou a ser consumido na boa e velha Albion.

Esse remédio/bebida era até então conhecido como "jenever", por causa da palavra francesa para zimbro (foto), que é "genévrier". Até hoje, na Holanda, produz-se o jenever, com álcool de centeio e zimbro, e envelhecido em tonéis de madeira, o que deixa a bebida com um colorido semelhante ao do uísque escocês. Sua graduação alcoólica é relativamente baixa, e o sabor é bem diferente do gin como o conhecemos hoje em dia.

Quando o jenever começou a se popularizar na Inglaterra, o governo liberou sua produção e impôs altas taxas de importação para destilados de origem estrangeira. A idéia era incentivar a economia local, e também criar uma utilidade para o cereal de baixa qualidade que não servisse para fazer cerveja. Por volta de 1740, a produção de jenever na Inglaterra já era seis vezes maior do que a de cerveja, e o baixo custo da bebida fez dela a favorita das classes mais desfavorecidas.

Nessa época, haviam em Londres mais de 15.000 casas de bebida, e mais da metade delas vendia gin. Foi então que surgiu a péssima fama do gin: mergulhados em depressão e miséria, os pobres londrinos começaram a se afogar no gin, em bares que anunciavam "1 centavo para ficar bem, 2 centavos para ficar ótimo, com 3 centavos você desmaia" e ofereciam camas de palha para os clientes caírem com conforto. Desde essa época, até hoje os ingleses chamam os bêbados de "gin-soaked", e se referem ao gin como "Mother's Ruin" (Ruína de Mãe).

Em 1751, o artista inglês William Hogarth fez duas gravuras retratando essa situação, chamadas "Beer Street" e "Gin Lane". Essa é a gravura "Gin Lane":

Ela era acompanhada do seguinte poema, tradução minha:

Gin, cursed Fiend, with Fury fraught,
Makes human Race a Prey.
It enters by a deadly Draught
And steals our Life away.

Virtue and Truth, driv'n to Despair
Its Rage compells to fly,
But cherishes with hellish Care
Theft, Murder, Perjury.

Damned Cup! that on the Vitals preys
That liquid Fire contains,
Which Madness to the heart conveys,
And rolls it thro' the Veins.

(Gin, monstro amaldiçoado, com apavorante força, faz da Raça Humana sua presa. Ele entra na forma de uma bebida mortal, e leva sua vida embora. Virtude e Verdade são levadas ao desespero, empurradas para o céu por sua fúria; mas ele nutre com cuidado infernal o Roubo, o Assassinato e a Mentira. Maldito copo!, que preda as energias vitais. Esse líquido contém Fogo, que Loucuras leva ao coração, e as faz passar pelas veias.)
Depois de tanto estardalhaço, não é de espantar que o gin tivesse se tornado o bode expiatório de todas as mazelas sociais da Inglaterra. Apesar de não ser culpado pela pobreza daquele país, o Governo colocou nele a culpa de tanta tragédia, impondo leis e impostos proibitivos que quase interromperam sua produção. Isso deu origem a revoltas populares nas ruas, no que ficou conhecido como "A Revolta do Gin".

Logo após esses levantes, o governo começou a diminuir as restrições, e fez o que deveria ter feito desde o começo: restringiu a produção da bebida aos estabelecimentos que cumprissem determinadas regras de produção, e colocou as "gin shops" sub a jurisdição dos magistrados. Isso também minimizou a principal causa dos problemas causados pelo gin naquele período: a péssima qualidade das bebidas produzidas.

Sem a obrigação de seguir nenhuma espécie de regulamentação ou leis, os produtores de gin criavam as misturas mais estapafúrdias para suprir a demanda crescente por bebidas fortes e baratas. Para obter um sabor levemente semelhante ao do jenever original, misturavam terebentina e outros solventes com água não-tratada e impurezas de todo tipo, criando verdadeiras bombas tóxicas na forma de bebida. A ingestão de solventes e produtos químicos pode trazer vários efeitos colaterais, entre eles a cegueira e a loucura. Por isso não é à toa que os bebedores de gin faziam tanta confusão e tragédia: não era o zimbro que provocava isso em suas mentes, mas sim a terebentina e outras porcarias que eles ingeriam pensando que era gin.

Levou muito tempo para que esse estigma da bebida destruidora de sociedades abandonasse o gin (se é que abandonou, como comprovam os comentários preconceituosos que ouvimos até hoje). A invenção das Colunas de Destilação em 1826 revolucionou a produção de álcool em todo o mundo, o que levou à criação de uma variação mais refinadas do gin.

No final do século XIX, já havia sido criado o London Dry Gin, que é essa bebida que chamamos de gin hoje em dia. Diferente de seu antepassado jenever, o gin londrino é transparente, tem um teor alcoólico mais alto (por volta de 38 graus, assim como a vodka) e não é envelhecido em tonéis de madeira. Essa nova bebida tornou-se socialmente aceitável, e passou a ser vendida em lojas mais elegantes do que as gin shops de outrora. Nascia assim um dos destilados mais importantes do mundo das bebidas, que logo se espalhou por todo o mundo.

As colônias inglesas foram logo invadidas pela novidade, e o gin passou a ser consumido em países tão distantes quanto a Índia, o Egito e a Jamaica. Foi nos países tropicais que os colonizadores ingleses tiveram a brilhante idéia de usar o gin para deixar mais agradável o amarguíssimo remédio que precisavam tomar para se prevenir da malária. Diluído em água carbonatada, o quinino deu origem à água tônica, que acrescida de gin e limão veio a se tornar um dos drinks mais clássicos e tradicionais do mundo: o Gin-Tônica.

Outro drink de gin que ficou famoso no mundo inteiro, graças aos filmes de James Bond, é o Martini, uma bebida sofisticada feita com gin puro acrescido de uma pequena quantidade de Vermute.

Para maiores informações, você pode visitar o Museu Nacional do Gin, na cidade de Hasselt, Bélgica.

12 de setembro de 2008

História dos Drinks

Eu estou sempre atento às palavras que as pessoas buscam no Google para cair aqui, e tive a grata surpresa de ver que alguém andou procurando saber mais sobre "a história dos drinks". Achei um tema interessante para diversificar nossos assuntos, e por isso aqui vão algumas anotações sobre ele.

Desde tempos imemoriais, o ser humano, assim como diversos outros animais da natureza, buscou maneiras naturais de relaxar o corpo e o cérebro. A produção de álcool a partir de diversos tipos de vegetais sempre foi uma prática comum a quase todas as culturas primitivas, e essa tradição se mantém até hoje. Com bilhões de adeptos espalhados por todas as partes do mundo, a bebedeira é a única cola que ainda consegue manter a humanidade unida.

Quando as pessoas começaram a misturar essas bebidas para criar misturas mais interessantes, é impossível afirmar. Mas a "cultura do cocktail" começou a se refinar e se tornar uma coisa séria na mesma época em que o resto do mundo: no final do século XVIII e início do século XIX, durante a tão falada Revolução Industrial.

A palavra "cocktail", que é como os americanos costumam se referir ao que nós chamamos de drinks, já era encontrada em uma revista estadunidense de 1803. Em um editorial da revista Farmer's Cabinet (Amherst, New Hampshire, 28 de Abril de 1803), um festeiro se recuperava de uma ressaca às 11 da manhã:
"Drank a glass of cocktail — excellent for the head ... Call'd at the Doct's. found Burnham — he looked very wise — drank another glass of cocktail."
(Bebi um copo de cocktail - excelente para a cabeça ... Chamei o Doutor. Encontrei Burnham - ele parecia muito sábio - bebi outro copo de cocktail.)

Um jornal nova-iorquino de 13 de Maio de 1806 respondia à pergunta de um leitor de uma maneira republicanamente cretina:
P.: O que é um cocktail?
R.: Cocktail é uma bebida estimulante composta de spirits de qualquer tipo, açúcar, água, e bitters - é conhecido vulgarmente como bittered sling e deve ser uma ótima bebida para a época das eleições, porque deixa o coração valente ao mesmo tempo em que confunde a cabeça. Deve ser muito aos candidatos Democratas, visto que, depois de engolir um cocktail, o eleitor está pronto para engolir qualquer coisa.
Em 1831, o capitão J.E. Alexander escreveu em seu diário algo que se assemelha muito a uma receita de cocktail: "brandy, gin ou rum, misturados na proporção de um terço de spirit e dois terços de água; incorporar bitters, e enriquecer com açúcar e noz moscada..."

O primeiro guia de drinks escrito por um barman foi publicado em 1862: "How to Mix Drinks; or, The Bon-Vivant's Companion", escrito pelo "Professor" Jerry Thomas. Esse livro incluía receitas de bebidas misturadas típicas dos séculos XVII e XVIII e que ainda eram populares no século XIX, como os punches, sours, slings, cobblers, shrubs, toddies, flips, juleps, e outros nomes engraçados. Em meio a essas estranhas categorias, o livro apresentava uma lista de 10 misturas classificadas como Cocktails.

A origem da palavra "cocktail", especificamente, não tem nenhum registro histórico, mas as teorias são tão variadas e absurdas que vale a pena conferir algumas delas:
  • As palavras "cock tail" significam, em inglês literal, "rabo de galo". Dizem que antigamente as pessoas enfeitavam os copos de bebidas misturadas com uma pena arrancada do rabo de um galo.
  • A palavra francesa para "casca de ovo" é "coquetel". Dizem que um médico francês, que atendia seus pacientes americanos de Nova Orleans com um bitters medicinal que ele mesmo fabricava, servia a bebida em uma casca de ovo. Seus pacientes, não conseguindo pronunciar "coquetel" corretamente, teriam anglicanizado a palavra para "cocktail".
  • A palavra "cocktail" pode ser uma derivação do nome de uma deusa asteca chamada Xochitl. Havia uma princesa mexicana chamada Xochitl que servia bebidas aos turistas americanos.
  • Outro teoria diz que "cock tail" era o apelido dado pelos ingleses da era vitoriana às prostitutas, e teria sido usada então para descrever as bebidas que os americanos faziam adicionando "impurezas" ao tradicional gin britânico, "prostituindo" a bebida com misturas.
Mais recentemente, podemos citar a fundação, em 24 de Fevereiro de 1951, da IBA - International Bartenders Association - uma espécie de FIFA dos drinks, que promove anualmente um concurso de bartenders.

A história dos drinks no século XX é muito mais bem-documentada e por isso mesmo daria muito trabalho falar dela por aqui, mas com o tempo eu vou acrescentando algumas informações sobre cada bebida!

Glossário:
Spirits - Bebidas alcoólicas, destilados.
Bitters - Bebida alcoólica amarga, produzida com álcool e ervas aromáticas.

5 de setembro de 2008

A Guerra da Vodka


Acho que em termos de preconceito e ignorância do público geral, a vodka só perde para o gin. Muitas foram as vezes em que eu tive que ouvir que "vodka nunca mais", "quando eu bebo vodka eu esqueço tudo", "vodka é a bebida que mais queima neurônio", etc.

Apavorado por tanto terrorismo, levei anos até finalmente estabelecer um relacionamento saudável com essa saborosa bebida. Criada em tempos imemoriais nos países do leste europeu (provavelmente na Polônia), a vodka é a bebida destilada em seu estado mais puro. Sua composição básica é o mais puro etanol diluído em água, com quantidades insignificantes de quaisquer subtâncias "flavorizantes" ou impurezas. Esse etanol é geralmente destilado a partir do trigo, mas também existem vodkas de outros cereais, ou até mesmo de batata e beterraba. Na Rússia, a vodka de beterraba é cor-de-rosa, e seu teor alcoólico de "apenas" 40% faz dela uma bebida de meninas. Lá os "machos" bebem mesmo é vodka com 80%, 90% de álcool.

Mas quem precisa provar que é macho? Quem bebe por prazer não que provar nada, a não ser um novo sabor de bebida.

Foi o famoso químico russo Dmitri Mendeleev (aquele mesmo que inventou a tabela periódica) quem concluiu que a concentração perfeita de álcool na vodka era de 38%. Durante alguns anos, a vodka russa foi produzida com 40% para facilitar as contas, mas as vodkas mais "sérias" são feitas com 38%. Segundo as pesquisas de Meledeev, essa concentração é o equilíbrio perfeito entre o "aguado" e o "queimante".

A palavra "vodka" vem do eslavo "voda" ou "woda", que significa "agüinha". É uma bebida muito antiga, que existe na Polônia desde, pelo menos, a Idade Média. Era utilizada como remédio, para diluir ervas medicinais, ou bebida pura, com os mais variados fins.

Hoje em dia a vodka é um mercado internacional que movimenta bilhões de dólares. Existe até mesmo uma Guerra da Vodka, promovida pelos países do Cinturão da Vodka contra os "países invasores" que querem tomar o mercado das vodkas desses países. Basta dizer que existe uma vodka francesa feita com vinho, e que o país onde a indústria da vodka mais cresce atualmente são os Estados Unidos.

Francamente, amigos. Vodka americana? Seria o mesmo que beber uma cachaça sueca, um champagne japonês, ou um saquê canadense. Além disso, as bebidas têm suas histórias, e tentar mudar os mercados apenas em nome do lucro sujo é de uma insensibilidade que só um mesmo um abstêmio poderia ter.

Enquanto eles brigam lá na Organização Mundial do Comércio, aqui no Brasil nós vamos nos virando com o que temos. Feliz ou infelizmente, existem em nosso país inúmeras marcas e fábricas de vodka vagabunda, mas apenas uma de vodka meia-boca e uma vodka decente.

As vagabundas são fáceis de identificar. Algumas vêm em garrafas de plástico. Todas têm nomes pseudo-russos ridículos como "Natasha", "Barishnikov", "Roskoff" e "Baikal". "Baikal" é o nome menos ridículo dessas todas, mas a vodka é incrivelmente ruim.

Outro método para identificar as vodkas de baixa qualidade é avaliar o preço. Vamos fazer as contas. Um litro de Balalaika custa menos de R$ 4,00. Um litro de Finlandia Classic custa R$ 69,00. Qual das duas você acha que é melhor?

Agora, se todas as vodkas baratas são horríveis, nem todas as vodkas caras são boas. Existe por exemplo uma tal de Ciroc, cuja garrafa de 700 mL não sai por menos de R$ 140,00. Agora, falando francamente: você pagaria isso tudo por uma vodka francesa feita de uva? Existe ainda uma tal de Grey Goose, que eu infelizmente nunca tive a oportunidade de provar, mas já vi muitos bartenders estrangeiros dizendo que ela só é famosa porque é uma das mais caras do mundo.

Sejamos realistas. Tudo bem que o futebol foi inventado na Inglaterra e o macarrão veio da China, mas vodka boa mesmo ainda são as produzidas nos países do Cinturão da Vodka. Estou falando dos verdadeiros inventores e tradicionais fabricantes desse líquido tão delicado, uma mistura genial em sua simplicidade que é muito mais fácil fazer mal-feita do que bem. Pena que basta misturar um álcool na água para fazer vodka? Nada disso.

Aqui no Brasil, existem muitas marcas de vodka disponíveis, mas fica difícil escolher qual é a melhor relação custo-benefício. Em nome da divulgação científica, nossa reportagem experimentou diversas marcas encontradas no mercado local, e resenhou uma por uma para o conforto e comodidade dos amigos leitores.

Ninnoff, Moscowita, Askov, Balalaika, Komaroff, Bowoyka, Kriskof, Roskoff, Perestroika, Romanoff, Baikal, Zvonka, Popokelvis, Stolin, Polovtz, Natasha, Novaya, Rajska, Kovak, Snovik, Eristoff - Isso não é vodka. Não usaria nem para limpar vidro. O "sabor" dessas marcas obscuras e baratas revela altos índices de impurezas. Provavelmente são feitas com água da torneira, álcool de cana-de-açúcar, e filtradas em carvão de churrasco. São essas pseudo-vodkas que dão má-fama à bebida verdadeira em solo brasileiro. É por causa de bebidas como essas que o Brasil não vai pra frente!

Ciroc - É francesa e feita de uva. Próxima.

Orloff - Costumava se encaixar na categoria acima, mas acabou de passar por uma revitalização de marketing e ficou menos ruim. Agora ela se gaba de ser destilada cinco vezes. Realmente, o sabor ficou bem menos agressivo, e ela não dá mais tanta dor-de-cabeça no dia seguinte. Sinal de que as impurezas ficaram mesmo para trás. Mas não se deixe enganar pelas aparências: a Smirnoff ainda é melhor e mais segura.

Blavod - Custa caro e nem é tão boa. É apenas... preta. Se bebida pura em um copo transparente, é divertida, e não agride. Mas para misturar em drinks, é horrível. Experimente fazer um Screwdriver com vodka preta. Fica parecendo água de pano de chão! Desnecessária.

Grey Goose - Famosa mais pelo preço do que pelo sabor. Além disso, a minha experiência diz que bebidas com aves no rótulo são sinal de mau agouro.

Smirnoff - Marca internacional famosíssima, concorrenta direta da Absolut na Europa (lá elas custam o mesmo preço e disputam o mesmo público). Ainda não é boa o suficiente para beber pura, mas rende ótimos drinks. É a única vodka nacional que eu tenho coragem de beber. E é a única garrafa que tem dentro da minha geladeira nesse exato momento. Faço drinks com ela regularmente, e nunca tive problemas.

Absolut - Acreditem em mim quando eu lhes digo: a Absolut é boa, mas não é tão boa quanto parece. Considerando que ela é sueca, e custa relativamente caro por aqui, ela não é tão incrível assim. 50% desse apelo é design e publicidade. Façam o "teste cego" e confiram. Ainda assim, é uma ótima vodka. Excelente para drinks. Evite as versões com gosto, tipo baunilha, pimenta, etc. Vodka é álcool de cereais diluido em água. Ponto final. Quer gosto de pimenta, coloque uma pimenta no copo.

Stolichnaya - Um néctar divino que escorre pelas montanhas carpadas da Mãe Rússia. Filtrada no mais puro carvão mineral siberiano, diluída em água do rio Volga... OK, estou inventando tudo isso, mas ainda assim é a melhor vodka russa que eu já bebi, e provavelmente a melhor vodka russa encontrada no Brasil. Altamente recomendada. Coisa fina mesmo. Pode beber purinha que desce macio e reanima.

Wyborowa - A legítima wódka polonesa. Um sabor incomparável. Nunca bebi nada parecido. Recomendo comprar, arrancar o dosador, e beber direto no gargalo. Pode misturar, pode beber pura, pode tomar banho com ela, ou usá-la para abençoar a sua casa. Essa agüinha, até passarinho bebe. Altamente recomendada, especialmente para quem não gosta de vodka. Quando estiver no paredão e só tiver direito a um último pedido, peça uma dose de Wyborowa. Vale cada centavo.

20 de agosto de 2008

Arquivos Confidenciais: RUM

Famoso por ser a bebida dos piratas do Caribe, o rum sempre me passou batido como sendo apenas o ingrediente alcoólico da Cuba Libre e nada mais. Perdido nesse deserto de informações que é a mídia brasileira, foi apenas em avançada idade que eu pude constatar a maravilhosa complexidade dessa peculiar bebida, oriunda das ilhas mais simpáticas da América Central.

As bebidas fermentadas feitas a partir do extrato da cana-de-açúcar (a popular GARAPA) são tão antigas quanto a própria cultura dessa planta. Já há milhares de anos atrás, os malaios produziam uma bebida chamada brum, que não tinha relação alguma com as corridas automobilísticas. Marco Polo, em suas famosas viagens, também encontrou esse "vinho de açúcar" quando estava no Irã.

O que os caribenhos fizeram foi começar a destilar essa bebida, a partir do século XVII. Os escravos pegavam o melaço, sub-produto do processo de refinamento do açúcar, e o fermentavam, destilando posteriormente o líquido para obter algo parecido com o que hoje conhecemos como rum. Diz a lenda que isso aconteceu na ilha de Barbados, e a bebida era chamada de rumbullion, ou kill-divil. Ou seja, era uma bebida tão forte que matava até o capeta!

Nessa época o rum se tornou bastante popular no Caribe e posteriormente em outras colônias britânicas. Eventualmente, a colônia que mais tarde ficou conhecida como Estados Unidos da América criou sua primeira destilaria de rum, em 1664. George Washington, em sua festa de posse, fez questão de servir um barril de rum barbadense a seus convivas.

Foi então que o rum começou a ser associado com os piratas e marujos em geral. Quando a marinha inglesa capturou a ilha da Jamaica, em 1655, os ingleses substituíram a ração diária de brandy francês de seus marinheiros por rum jamaicano. Por volta de 1740, os marujos e jamaicanos em geral já estavam misturando seu rum com suco de limão e/ou água, uma mistura que ganhou o apelido de grog. A marinha inglesa continuou dando essa ração de rum a seus marinheiros até 31 de Julho de 1970!

Existe uma lenda muito interessante dessa época. Dizem que o corpo do almirante Nelson, morto na batalha de Trafalgar, foi colocado dentro de um barril cheio de rum para que o cadáver fosse preservado durante a viagem de volta à Inglaterra. Quando o navio chegou e o barril foi aberto, o líquido havia desaparecido: marinheiros teriam aberto um buraco no barril e bebido todo o rum, misturado ao sangue do almirante morto. A história é provavelmente mentira, mas até hoje na Inglaterra algumas pessoas chamam o rum de sangue do Almirante.




Existem vários tipos diferentes de rum:

Light (silver, white, carta blanca ou carta prata) - É um rum transparente, usado para drinks misturados. Em geral ele tem um sabor muito suave, pra não dizer fraco.

Gold (amber, ou carta oro) - é um rum mais antigo, envelhecido em tonéis de madeira, o que dá a ele um colorido característico.

Dark Rum - Não tem nada a ver com fotografia. Também conhecido como "black rum", mais escuro ainda do que o "carta oro". É quase preto mesmo, parece Coca-Cola sem gás. É um rum que foi envelhecido por muito tempo, e geralmente tem um sabor mais forte e acentuado, com toques de melaço e da madeira. Também é o mais usado na culinária.

Spiced - Geralmente é um rum "carta oro" acrescido de temperos ou especiarias para adicionar mais sabores. Os mais caros são feitos assim, os mais baratos são apenas rum branco com corante de caramelo.

Flavored - Alguns fabricantes nunca perdem a mania de adicionar sabores às bebidas. Por isso não se espante se você encontrar por aí um rum com sabor de manga, laranja, frutas cítricas, côco ou limão. É o caso do infame Malibu, aquele da garrafinha branca que seu tio divorciado adora.

Premium - Assim como as bebidas com gosto artificial de frutas, também sempre vai existir um mercado para as bebidas caras e ultra-refinadas. É um rum artesanal, de pouca produção, feito com ingredientes da melhor qualidade, e bebido puro, sem misturar. Tipo assim um Anízio Santiago do rum.

Overproof - Esse é o famoso mata-capeta: ao invés dos tradicionais 40% de álcool que se encontra na maioria das bebidas, o rum overproof tem mais de 75%. Proof é uma unidade de medida de álcool em uma bebida, que equivale a aproximadamente 0.5% da concentração. O overproof mais famoso da atualidade é o Bacardi 151 (v. receita do drink Zombie).


Aqui no Brasil, além do supra-citado Malibu, também podemos encontrar facilmente garrafas de rum das marcas Bacardi e Montilla, disponíveis a preços módicos em qualquer supermercado que se preze. Olhando pela garrafa, o Montilla parece melhor, pois tem um pirata bem grande no rótulo, com papagaio no ombro e tudo mais. No entanto, se observarmos atentamente a pequena logomarca do Bacardi, veremos que ela é um morcego. Piratas são muito legais, mas vampiros e o Batman são mais.

O Bacardi foi inventado em Cuba, por Don Facundo Bacardí Massó. Após experimentar novas maneiras de refinar o rum vagabundo que era produzido na região onde vivia, Don Facundo e se irmão José fundaram uma destilaria em 4 de Fevereiro de 1862. Assim começou a história da maior empresa familiar de fabrico de bebidas do mundo.

O Bacardi vende hoje cerca de 200.000.000 de garrafas por ano, em mais de 200 países. Muitas dessas fui eu que comprei.

Aqui no Brasil, só se encontram garrafas do Bacardi Superior, nas versões Oro y Plata. Eu já provei muito das duas e posso afirmar categoricamente que a Oro é muito mais gostosa, tanto para drinks quanto para beber pura. Existe também o Bacardi 151, que tem 75% de teor alcoólico, mas as leis brasileiras não permitem que essa delícia atravesse as fronteiras da nossa gloriosa nação. Também já vi pra vender por aqui um tal de Bacardi Black, mas tinha gosto de Vicky Vaporub e eu nunca mais vi isso pra vender em lugar nenhum.

Para quem está a fim de curtir um lance mais profissional, o Havana Club não é muito difícil de encontrar aqui no Brasil. É um rum branco bem suave e saboroso, muito melhor do que o Bacardi branco. Custa um pouco caro, mas vai deixar qualquer drink que você fizer com ele muito mais suave e encorpado, com um sabor refinado e que não agride o gogó.

Se você tiver sorte de freqüentar um Carrefour esperto, pode trombar com uma garrafinha do famoso Negrita. É um rum francês muito saboroso e leve, e não custa muito caro. Altamente recomendado.

Mas, francamente (entendeu? Carrefour, Frfança, francamente), o Bacardi Oro é a melhor relação custo-benefício que você vai encontrar por aí. É uma espécie assim de um Smirnoff do rum. Pode comprar sem susto e beber até cair.



Alguns drinks com rum recomendados pelo Drink Drinker:


Daiquiri

Muita gente fala do Martini do James Bond e do Cosmopolitan da menina do Sex and the City, mas ninguém cita o Banana Daiquiri do Poderoso Chefão 2.

- Eu queria pedir um "banana daiquiri". Como eles falam "banana daiquiri" aqui em Cuba?
- "Banana daiquiri".

Mas o Daiquiri clássico não leva banana, mas sim limão. O drink foi inventado por engenheiros americanos que trabalhavam na mina de ferro de Santiago, em Cuba, e depois foi se espalhando pelo mundo. A receita é simples, mas poderosa:
  • 9 partes de Rum
  • 4 partes de Suco de Limão
  • 1 parte de Xarope de Goma
É só bater tudo com gelo na coqueteleira e mandar pra dentro, de preferência em uma taça de Martini.

O xarope de goma é um xarope de água com açúcar que leva goma arábica para dar uma textura mais espessa. Se estiver difícil de achar, você pode tentar substituir por água com açúcar, Karo, ou mel. Não é a mesma coisa, mas é melhor do que ficar sem beber, certo?

Existem variações com frutas, inclusive o fabuloso Frozen Strawberry Daiquiri que eu postei ali em baixo. Não deixem de experimentar!



Cuba Libre

O famoso Cuba Libre! Quem já fez faculdade sabe muito bem do que se trata.
  • 1 colher de açúcar
  • Umas gotinhas de Suco de Limão
  • 120mL de Coca-Cola
  • 50mL de Rum
Encha um copo alto com gelo, e adicione o açúcar, o rum e o suco de limão. A Coca-Cola vai por último, para não perder o gás.



Mojito

Esse é um drink tipicamente "de menina", e eu já vi o coitado sendo preparado das maneiras mais desastrosas. Vou aproveitar essa oportunidade para tirar a limpo essa história.

O drink começa com um copo highball, onde colocamos um pouco de suco de limão, açúcar (ou xarope), e algumas folhas de hortelã. Aí então você pega o seu fiel pilão de madeira, item indispensável em qualquer bar, e amassa as folhas de hortelã - delicadamente. A idéia aqui é extrair uma pequena gota do óleo essencial das folhas... não fazer um patê de menta!

Depois você coloca rum e completa com gelo e água carbonatada. Atenção! Não é água com gás, nem água tônica! Experimente usar Club Soda ou alguma coisa assim. Sabe aquela Schweppes pretinha? É, é tipo aquilo. Deve ficar bom.



Eu não sei como chama esse drink mas é tipo um Screwdriver de rum. Deve ter um nome pra isso, mas eu nunca descobri. É muito simples: você pega um suco de laranja, de preferência esses de caixinha bem artificiais e aveludados, e bate com bastante gelo e uma boa dose de Bacardi Oro. É servir e beber, sem mistérios. Uma delícia, salva qualquer festa, e desce mais redondo do que o Screwdriver de Smirnoff que a gente costuma encarar por aí.



Hurricane

É um drink típico de Nova Orleans, feito com rum, suco de maracujá, e sweet and sour mix. Eu já tentei fazer várias vezes, mas nada no universo se compara ao majestoso Hurricane do TGI Friday's. É imbatível, e uma das melhores coisas que eu já bebi na vida. E olha que eu odeio suco de maracujá.



Macuá

A bebida oficial da Nicarágua! Ou seria da Guatemala? Droga, eu sempre confundo os dois.
  • 2 partes de rum Flor de Caña
  • 2 partes de Suco de Goiaba
  • 1 parte de Suco de Lima
  • Açúcar a gosto
Junte tudo em um liquidificador com 1 xícara de gelo e bata bem até virar um creme homogêneo. Sirva em um copo highball e decore com uma fatia de laranja.



Orange Whip

Lembra no final de The Blues Brothers quando o John Candy pede 3 Orange Whips? Pois é. Não tem nada a ver. Ele estava se referindo a uma bebida industrializada, não-alcoólica. O drink é bem diferente!
  • 4 partes de Suco de Laranja
  • 1 parte de Rum
  • 1 parte de Vodka
  • 2 partes de Creme de Leite fresco
Bata tudo em liquidificador, sem gelo, como se fosse um milk shake. Depois sirva em um copo Collins com bastante gelo.



Piña Colada

Um clássico dos drinks com guarda-chuvinha. Muita gente diz ter inventado esse drink, e existe até uma placa de mármore em Porto Rico em homenagem a um barman local que o teria criado. Fato é que existem referência a bebidas com esse nome desde 1922, e ninguém sabe direito quem é o pai da criança. Mas, sinceramente, será que isso importa tanto?
  • 1 parte de Rum
  • 1 parte de Leite de Côco
  • 3 partes de Suco de Abacaxi
Misturar em um copo alto com gelo moído até ficar homogêneo. Vire em um copo gelado, decore com um pedacinho de abacaxi e sirva.

Se você estiver a fim de enganar algum turista, também pode servir o drink dentro de um abacaxi ou de um côco!



Bacardi

Existe o rum da marca Bacardi e existe o drink Bacardi. Não sei qual é a relação entre os dois, mas provavelmente o drink foi inventado pela Bacardi para ajudar a vender seu produto, assim como provavelmente foi a fábrica do Crush que inventou o Hi-Fi para alavancar suas vendas no Brasil.
  • 9 partes de Rum Bacardi
  • 4 partes de Suco de Limão
  • 1 parte de Grenadine
É só bater na coqueteleira com gelo e servir em uma taça de Martini.

O grenadine é uma espécie de Groselha Vitaminada Milani mais chic, feita com várias frutinhas diferentes. Muitos drinks levam esse ingrediente, e no Brasil as pessoas têm a péssima mania de trocá-lo por groselha comum. Quem já bebeu um Tequila Sunrise de groselha e um de grenadine sabe muito bem do que eu estou falando!



BONUS TRACK

Zombie

Criado no final dos anos 1930 pelo famoso Donn Beach do "Don the Beachcomber" em Hollywood. Esse drink tem esse nome porque depois de beber um deles você vai virar um zumbi.

Eu não sei até que ponto isso é verdade porque eu nunca experimentei esse drink, por isso estou colocando aqui na sessão Bonus Track. Se quiser fazer um, faça por sua própria conta e risco! Mas já vou logo avisando: se você vier aqui tentando comer meu cérebro, vai levar um tiro na cabeça igual todos os outros zumbis que eu já encontrei.
  • 1 parte de Rum Branco / Plata
  • 1 parte de Rum Amarelo / Oro
  • 1 parte de Rum Preto / Dark
  • 1 parte de Licor de Damasco
  • 1 parte de Suco de Abacaxi
  • 1 parte de Suco de Mamão
  • 1/2 parte de Rum 151-proof (o famoso 75% de álcool citado acima)
  • Uma pitada de Grenadine
Misture tudo, exceto o Rum 151, em uma coqueteleira com gelo. Despeje no copo e complete com o rum 151. Se você quiser fazer uma presepada, e também tirar um pouco do álcool da bebida, dá para acender o drink com um isqueiro!

Boa sorte!


Por hoje é só, amigos beberrões... espero ter coberto razoavelmente o tema do rum, e ajudado vocês a compreenderem e aceitarem melhor essa versátil bebida, irmã da nossa querida Cachaça! Divirtam-se, bebam bastante, comam muita gordura e não vomitem. Se forem dirigir, não bebam. Mas se forem beber, me chamem!!!