13 setembro 2008

Gin - O Crack Engarrafado!

Quando você pede um drink com gin em um bar ou restaurante do Brasil, os comentários mais comuns que você ouve são os seguintes:

- Gin é o último estágio do alcoolismo!
- Gin tem gosto de perfume!
- Gin é bebida de velho!

Esses comentários fazem parte do inconsciente coletivo, e quase todo mundo os têm na ponta da língua, não demonstrando pudor algum em dispará-los contra o pobre e inocente bebedor de gin, e sem demonstrar ao menos uma ponta de curiosidade. No entanto, depois de ser agraciado com uma amostra do mais puro gin London dry, a pessoa nunca mais volta atrás: eu nunca ouvi falar de um ex-bebedor de gin. Além do mais, todo alcoólatra que eu conheci na minha vida só bebia cerveja nacional, perfume é uma coisa muito cheirosa, e coisas de velho sempre são mais legais do que coisas de jovem - como, por exemplo, as bebidas, as gírias, as roupas, e as músicas.

Vou contar agora a pequena história dessa misteriosa bebida, para nos ajudar a compreender melhor o seu valor.

Tudo começou na Holanda, por volta do século XVII, quando o médico e cientista alemão Franciscus Sylvius começou a desenvolver um remédio para curar doenças do aparelho digestivo como lumbago, problemas de fígado e coisas do gênero. O remédio, feito à base de álcool de grãos e uma frutinha chamada zimbro, logo se espalhou pelas farmácias de toda a Amsterdã e região.

Em 1688, ocorreu na Inglaterra a Revolução Gloriosa, que destronou o rei James II e o substituiu pelo holandês Guilherme de Nassau e Orange, que tornou-se então o rei James III da Inglaterra, Irlanda e Escócia. Após sua ascensão ao trono, seguiu-se um período de abertura de mercado para produtos holandeses, e então o remédio do Dr. Sylvius passou a ser consumido na boa e velha Albion.

Esse remédio/bebida era até então conhecido como "jenever", por causa da palavra francesa para zimbro (foto), que é "genévrier". Até hoje, na Holanda, produz-se o jenever, com álcool de centeio e zimbro, e envelhecido em tonéis de madeira, o que deixa a bebida com um colorido semelhante ao do uísque escocês. Sua graduação alcoólica é relativamente baixa, e o sabor é bem diferente do gin como o conhecemos hoje em dia.

Quando o jenever começou a se popularizar na Inglaterra, o governo liberou sua produção e impôs altas taxas de importação para destilados de origem estrangeira. A idéia era incentivar a economia local, e também criar uma utilidade para o cereal de baixa qualidade que não servisse para fazer cerveja. Por volta de 1740, a produção de jenever na Inglaterra já era seis vezes maior do que a de cerveja, e o baixo custo da bebida fez dela a favorita das classes mais desfavorecidas.

Nessa época, haviam em Londres mais de 15.000 casas de bebida, e mais da metade delas vendia gin. Foi então que surgiu a péssima fama do gin: mergulhados em depressão e miséria, os pobres londrinos começaram a se afogar no gin, em bares que anunciavam "1 centavo para ficar bem, 2 centavos para ficar ótimo, com 3 centavos você desmaia" e ofereciam camas de palha para os clientes caírem com conforto. Desde essa época, até hoje os ingleses chamam os bêbados de "gin-soaked", e se referem ao gin como "Mother's Ruin" (Ruína de Mãe).

Em 1751, o artista inglês William Hogarth fez duas gravuras retratando essa situação, chamadas "Beer Street" e "Gin Lane". Essa é a gravura "Gin Lane":

Ela era acompanhada do seguinte poema, tradução minha:

Gin, cursed Fiend, with Fury fraught,
Makes human Race a Prey.
It enters by a deadly Draught
And steals our Life away.

Virtue and Truth, driv'n to Despair
Its Rage compells to fly,
But cherishes with hellish Care
Theft, Murder, Perjury.

Damned Cup! that on the Vitals preys
That liquid Fire contains,
Which Madness to the heart conveys,
And rolls it thro' the Veins.

(Gin, monstro amaldiçoado, com apavorante força, faz da Raça Humana sua presa. Ele entra na forma de uma bebida mortal, e leva sua vida embora. Virtude e Verdade são levadas ao desespero, empurradas para o céu por sua fúria; mas ele nutre com cuidado infernal o Roubo, o Assassinato e a Mentira. Maldito copo!, que preda as energias vitais. Esse líquido contém Fogo, que Loucuras leva ao coração, e as faz passar pelas veias.)
Depois de tanto estardalhaço, não é de espantar que o gin tivesse se tornado o bode expiatório de todas as mazelas sociais da Inglaterra. Apesar de não ser culpado pela pobreza daquele país, o Governo colocou nele a culpa de tanta tragédia, impondo leis e impostos proibitivos que quase interromperam sua produção. Isso deu origem a revoltas populares nas ruas, no que ficou conhecido como "A Revolta do Gin".

Logo após esses levantes, o governo começou a diminuir as restrições, e fez o que deveria ter feito desde o começo: restringiu a produção da bebida aos estabelecimentos que cumprissem determinadas regras de produção, e colocou as "gin shops" sub a jurisdição dos magistrados. Isso também minimizou a principal causa dos problemas causados pelo gin naquele período: a péssima qualidade das bebidas produzidas.

Sem a obrigação de seguir nenhuma espécie de regulamentação ou leis, os produtores de gin criavam as misturas mais estapafúrdias para suprir a demanda crescente por bebidas fortes e baratas. Para obter um sabor levemente semelhante ao do jenever original, misturavam terebentina e outros solventes com água não-tratada e impurezas de todo tipo, criando verdadeiras bombas tóxicas na forma de bebida. A ingestão de solventes e produtos químicos pode trazer vários efeitos colaterais, entre eles a cegueira e a loucura. Por isso não é à toa que os bebedores de gin faziam tanta confusão e tragédia: não era o zimbro que provocava isso em suas mentes, mas sim a terebentina e outras porcarias que eles ingeriam pensando que era gin.

Levou muito tempo para que esse estigma da bebida destruidora de sociedades abandonasse o gin (se é que abandonou, como comprovam os comentários preconceituosos que ouvimos até hoje). A invenção das Colunas de Destilação em 1826 revolucionou a produção de álcool em todo o mundo, o que levou à criação de uma variação mais refinadas do gin.

No final do século XIX, já havia sido criado o London Dry Gin, que é essa bebida que chamamos de gin hoje em dia. Diferente de seu antepassado jenever, o gin londrino é transparente, tem um teor alcoólico mais alto (por volta de 38 graus, assim como a vodka) e não é envelhecido em tonéis de madeira. Essa nova bebida tornou-se socialmente aceitável, e passou a ser vendida em lojas mais elegantes do que as gin shops de outrora. Nascia assim um dos destilados mais importantes do mundo das bebidas, que logo se espalhou por todo o mundo.

As colônias inglesas foram logo invadidas pela novidade, e o gin passou a ser consumido em países tão distantes quanto a Índia, o Egito e a Jamaica. Foi nos países tropicais que os colonizadores ingleses tiveram a brilhante idéia de usar o gin para deixar mais agradável o amarguíssimo remédio que precisavam tomar para se prevenir da malária. Diluído em água carbonatada, o quinino deu origem à água tônica, que acrescida de gin e limão veio a se tornar um dos drinks mais clássicos e tradicionais do mundo: o Gin-Tônica.

Outro drink de gin que ficou famoso no mundo inteiro, graças aos filmes de James Bond, é o Martini, uma bebida sofisticada feita com gin puro acrescido de uma pequena quantidade de Vermute.

Para maiores informações, você pode visitar o Museu Nacional do Gin, na cidade de Hasselt, Bélgica.

6 comentários:

Tayrone disse...

comecei a tomar gin dpois de ler este post, muito bom!!!

the evil disse...

belo post!!

dessoy disse...

Gin é a bebida dos Deuses. Só não bebe quem não conhece.
Parabéns pelo post!

Davidson Getzemüllersteigen disse...

Eu acho que comprei um GIn bem vagabundo .. O nome é sieger's e tem 45,6 % de álcool . o gosto é igual de perfume mesmo ....
E outra coisa 2 doses te deiza doido mesmo .Três te desmaia e um copo te deixa no hospital igual o meu colega ficou .

Daniel Werneck disse...

O único gin nacional que eu bebia sem medo era o Gilbey's, era bem honesto e saudável. O Seager's é mesmo ruim e faz mal à saúde, e existem outras marcas que ainda conseguem ser ainda piores do que ele! Fiquem longe!

Felizmente hoje em dia os importados estão custando bem menos do que há alguns anos atrás. Dá para encontrar um Bombay Sapphire ou um Gordon's em bons supermercados por menos de 100 reais o litro.

ChicoSiq disse...

Olá Daniel, gostei do seu artigo sobre o GIN e como estou fazendo um trabalho da Faculdade, preciso fazer a referencia aos seu artigo de forma correta. Para tanto gostaria de saber a data correto em que foi publicada no DRINK DRINKER e se você tem algum livro para me indicar, que trata de forma mais profundo sobre o GIN.